Com uma dose de bom senso por parte dos representantes políticos e a ajuda da nova equipe econômica, a fase difícil vivida pela indústria de base pode começar a ser revertida. Há esperança de que o ano de 2016 seja melhor. A expectativa foi declarada por Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). “Temos um sentimento positivo, sem perder o realismo”, explica.

A esperança do dirigente persiste, apesar dos números bem negativos obtidos pelo setor no ano passado. A receita líquida total da indústria de máquinas e equipamentos nacionais ficou na casa dos R$ 84 bilhões, com queda de 14,4% em relação a 2014, de acordo com dados da Abimaq. Fazendo o cálculo desse número, levando-se em conta a valorização do dólar, a queda salta para 22,8%. “Nos últimos três anos encolhemos 30%”, lamenta.

Para que tudo melhore, Pastoriza acha fundamental a evolução favorável do quadro político no primeiro trimestre. Para ele, a crise entre os poderes executivo e legislativo intoxica o ambiente, torna os empresários inseguros em relação aos investimentos. “Os empresários não podem fazer muita coisa nesse sentido, é preciso que os políticos pensem mais no país e não em seus problemas partidários”.

No campo da economia, acredita no diálogo. “Estamos conversando com o governo e acredito que conseguiremos chegar a alguns acordos positivos”. Algumas medidas de incentivo ao crédito já foram aprovadas em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), realizada no final de janeiro, em Brasília, da qual o dirigente participou. “Acredito que teremos um pouco de fôlego e a economia poderá ser destravada. O aumento do crédito é fundamental para que consigamos iniciar a retomada do Brasil”, ressalta.

Outra medida definida na mesma reunião foi o anúncio de que haverá o refinanciamento das dívidas contraídas junto ao BNDES. “Além de dar fôlego neste momento tão agudo da crise, isso contribuirá para que as empresas estejam preparadas e equipadas para o momento em que houver a recuperação da economia brasileira”. Ele avalia positivo o pacote anunciado como medida emergencial. “Mas o governo não pode perder de vista a necessidade de iniciar, o quanto antes, as reformas estruturais que tanto o país necessita”.

Entre essas reformas, defende a reestruturação do PIS/Cofins e do ICMS. “O ICMS deveria ser simplificado e ter taxa única em todos os estados da federação”, recomenda. Acredita ser imprescindível a persistência na luta pela redução do déficit fiscal. Ele quer, no entanto, que o governo trabalhe sobre o corte de suas verbas de custeio. Defende a criação de alguns programas de incentivo para estimular a indústria, que vem sendo prejudicada nos últimos anos.

A desvalorização do real ocorrida no ano passado tem aspectos positivos. O dólar alto deve colaborar com a competitividade da indústria de base no mercado interno. O incremento às exportações resultante da desvalorização do real é outro fator visto com esperança. Chegar ao mercado externo, no entanto, não será tão fácil. Um dos problemas se encontra no pequeno crescimento previsto para a economia mundial, que torna o mercado externo para lá de acirrado. “A crise internacional é uma realidade”, confirma. Outro é a falta de financiamento oferecida pelo governo brasileiro aos compradores internacionais. “Ninguém compra máquinas se não houver financiamento, precisamos de alguma medida nesse sentido”.

Alguns outros resultados indicam as dificuldades vividas pelo setor no ano passado. O consumo aparente de máquinas no Brasil movimentou R$ 130 bilhões em 2015, com queda de 11,7% em relação a 2014. Considerando-se o efeito cambial, essa queda corresponde a 24,1%. A indústria de base terminou o ano utilizando 65,8% de sua capacidade instalada. Em 2014, esse índice ficou na casa dos 68%. O número de empregos no setor sofreu bastante. Ele caiu de 353 mil, no final de 2014, para 308 mil.

A balança comercial apresentou saldo negativo de US$ 10,78 bilhões. As importações no ano alcançaram US$ 18,81 bilhões, 23,3% a menos do que em 2014. “Essa queda se deve muito mais à recessão do mercado interno do que à desvalorização da moeda nacional”. As exportações movimentaram US$ 8,03 bilhões, com decréscimo de 16,2%. Nesse aspecto, vale ressaltar que o dólar se tornou competitivo para as indústrias nacionais a partir do último trimestre. Foi o período em que começou uma recuperação das vendas externas. Em dezembro, elas cresceram 14,1% em relação ao mês anterior e 8% quando comparadas com os resultados de dezembro de 2014.

No mundo do plástico – Um pouco de otimismo não faz mal a ninguém. A situação não parece muito animadora, mas pode melhorar. “Hoje, o Brasil todo está muito apreensivo diante dos fatos políticos e econômicos que estão por vir, mas acreditamos que o ambiente de negócios possa ser melhorado, se medidas sensatas forem adotadas. O mercado de máquinas para indústria do plástico tem dado sinais positivos e já iniciamos uma modesta recuperação”, explica Gino Paulucci Junior, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico, da Abimaq.

O dirigente avalia que o momento atual pode ser revertido. Ele aponta existirem condições para retomada em ritmo veloz se a situação se acalmar. “Muitos projetos de empreendimentos estão sendo represados e uma hora vão sair do papel”. De quebra, está no time dos que acreditam que a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro pode ajudar a aquecer o consumo. “É um fato positivo”, avalia.

O dólar caro em relação ao real também pode ajudar os fabricantes de máquinas e equipamentos para plástico. No cenário interno, faz com que os produtos nacionais não saiam em desvantagem quando comparados aos importados. “Temos competência, conhecemos nossos clientes, eles nos conhecem e reconhecem nosso trabalho”, garante. No âmbito externo, incentiva exportações. “No ano passado exportamos significativamente mais do que nos anos anteriores. Há casos com mais de 100% de incremento nas vendas se comparado aos períodos de dólar barato”.

Vale uma ressalva. “Exportar é sempre importante, mas não é tábua de salvação para quando o mercado interno esfria pelas dificuldades da economia”. Além disso, envolve fatores um tanto fora de uso para a maioria das empresas brasileiras, que nos últimos anos abandonaram o mercado externo pela falta de competitividade proporcionada pelo câmbio.

Quem se manteve preocupado em vender para o exterior mesmo com o real valorizado agora encontra muito mais facilidade para incrementar os negócios. Os demais precisam ir atrás, o que nem sempre é tão rápido. “A operação requer retomada na prospecção de mercado e adequação do portfólio de produtos para às necessidades dos clientes internacionais. Também é preciso contar com estrutura de logística para instalar e treinar os operadores de máquinas, além de oferecer assistência técnica”.

Paulucci também acredita que o avanço tecnológico dos equipamentos pode ajudar a aquecer as vendas. “Uma máquina nova gasta de 20% a 40% menos tempo para transformar a mesma tonelada de resina do que uma antiga, com economia de energia que pode girar em torno dos 30% a 40%. E as vendas fracas ajudam os transformadores a conseguir bons preços na hora de modernizar suas linhas de produção”. De acordo com ele, grandes clientes estão se aproveitando desses fatores. Infelizmente as empresas menores estão descapitalizadas e precisam recuperar o fôlego e contar com financiamento para voltar a investir.

Acima da média – Não são fornecidos ao mercado dados estatísticos oficiais sobre o mercado de máquinas para a indústria do plástico. Apesar da falta de estatística confiável, a avaliação de Paulucci Junior é de que o setor apresentou resultados melhores em relação à média da indústria de base brasileira como um todo no ano passado. “A indústria de transformação do plástico é forte e se moderniza sempre. Há demanda crescente de variedades de máquinas e equipamentos, e estamos preparados para atender a este chamamento”.

De acordo com o dirigente, o ano de 2015 começou com uma carteira de pedidos confortável para o segmento. Os negócios registraram piora a partir do segundo semestre, com a redução de vendas para o mercado interno, compensada em parte e para algumas empresas pelas exportações.

Por contar com diferentes tipos de máquinas e equipamentos, o segmento deve ser avaliado com cuidado. Cada nicho de mercado sofreu mais ou menos com a crise. “Os fabricantes brasileiros de injetoras foram os que enfrentaram dias mais difíceis. As vendas caíram em torno de 10%, em grande parte pelos problemas enfrentados pelo setor de autopeças”, informa. A queda nas vendas das sopradoras está estimada em 7%. “Existe procura razoável por máquinas para fabricar embalagens de determinados produtos, como os de higiene e limpeza ou o de águas minerais”, explica.

O caso das extrusoras é o menos crítico. “A queda ficou em torno dos 3%. O plástico avançou bastante nos segmentos de embalagens flexíveis”. As embalagens flexíveis também ajudaram fabricantes de impressoras e máquinas de corte e solda. “A queda foi próxima de 3%”. Para os fornecedores de periféricos, a redução das vendas deve girar entre 4% e 5%. A procura por periféricos aumenta ou cai de acordo com o interesse de muitos transformadores em automação. Quando o clima econômico está favorável esse nicho se beneficia bastante.